A Vaquinha e o Panetone
Uma vaquinha no Instagram. Cirurgia do “Panetone”. Pix na descrição, fotos do cachorro, a urgência de quem não larga enquanto não resolve.
Quem criou a vaquinha postava, atualizava, respondia cada comentário. Médica veterinária — não do tipo que faz o plantão e vai embora. Do tipo que entra na causa, mobiliza gente, não larga o osso.
Claro que eu ajudei. Era o “Panetone” — e eu amo panetones e cachorros.
Só que eu conheço essa história desde antes dela. Antes mesmo dela ser a salvadora do Panetone.
Eu a vi entrar no IFMT em 2018, no mesmo ano em que entrei aqui. Não como médica — como aluna. Adolescente no meio de tanta gente, fazendo pergunta na cantina, sentada nas mesas do pátio. Nada especial à primeira vista. Só mais uma tentando sobreviver ao ensino médio e achar o próprio caminho.
Três anos depois, terminou o ensino médio. Prestou vestibular. Passou em veterinária.
Tem aluno que marca. A gente lembra do nome, encontra um dia na rua, recebe notícia de alguém. De vez em quando a gente se esbarrava pela cidade — um “como vai?”, um “quase formando”, um “já tá de jaleco?”. Sempre com pressa, sempre com a urgência típica da idade, sempre dando um jeito.
Hoje é veterinária formada. CRMV, plantão, clínica.
Mas o que me pegou naquela vaquinha não foi o diploma. Diploma a gente vê o tempo todo por aqui — aluno que chega, se forma, segue. O que me pegou foi perceber que ela não virou só mais uma profissional. Virou a pessoa que não só participa: às vezes é ela quem mobiliza. Que larga a lógica do “só ganhar dinheiro” pra atender emergência de graça. Que briga por cachorro de rua, ajuda gato atropelado, coloca a cara no sol e diz “vamos ajudar”.
Diariamente vejo adolescentes virarem adultos na minha frente. É diferente, porém, quando alguém se torna o tipo de pessoa que você admira de verdade.
Muito do que uma pessoa é vem da família e dos amigos, nos primeiros anos de vida. Mas eu vejo, ano após ano, como os três anos no Belão — o campus onde ela estudou e onde eu trabalho — também moldam esses jovens. Não sozinho. Em companhia. Em valores que pegam no ar que respiramos aqui e que ficam.
Foi aí que caiu a ficha. O IFMT não é só prédio, processo, concurso. É isso: gente que entra com 16, 17 anos, sem saber direito o que vai ser, e um dia você encontra uma daquelas crianças por aqui salvando a vida de um bicho que ninguém mais quis olhar.
Ninguém fala disso no edital. Mas é a melhor parte do trabalho.
Ver essas meninas e meninos crescerem. E principalmente ver virarem adultos que você respeita e admira.