29 jul 2026

Enchi o saco do Ubuntu

Querido Diário das Lamentações, formatei o disco e instalei Debian. Não foi manifesto. Não foi guerra santa. Foi o fim da paciência.

Anos de convivência

Eu usei Ubuntu por muitos anos. Anos de verdade. Sabia onde ficava cada arquivo de configuração. Reclamava do Unity, depois do GNOME, depois do que viesse — e ainda assim voltava. Funcionava. A comunidade ajudava. O apt era um amigo honesto.

Ubuntu esteve em máquinas de casa, no trabalho, em VMs, em servidores que eu não deveria ter tratado como desktop. Eu defendia. Eu recomendava. Era aquele cara que dizia “instala Ubuntu” com a tranquilidade de quem indica um restaurante de confiança.

Até que a Canonical começou a cozinhar outra receita.

Erosão

Não foi um dia só.

Unity imposto, Mir abandonado, Upstart no meio do caminho: a mania de reinventar a roda e largar o projeto na estrada. Decisões de produto com cheiro de “nós sabemos o que é melhor para você”. Uma empresa que cresceu vendendo Linux fácil para humanos — e aos poucos passou a tratar o usuário como território, não como parceiro.

Eu engolia. “É só uma fase.” “Dá para desligar.” “No próximo release melhora.”

Não melhorava. Só mudava o formato da pedra no sapato.

A gota d’água: Docker via Snap

Aí vieram os Snaps.

Na teoria: isolamento, atualização automática, pacote único. Na prática: daemon com vida própria, /snap ocupando espaço que ninguém pediu, app que abre pensando na vida, e o apt install que, no fundo, te empurra para outra realidade.

O meu limite teve nome.

Docker já é um universo — sockets, grupos, volumes, redes, permissões. Embrulhar isso num Snap é pedir para o confinamento brigar com a ferramenta o dia inteiro. Volume que não monta onde deveria. Caminho que some atrás da sandbox. Erro de permissão escrito por alguém que claramente nunca subiu um container de verdade. E, de brinde, a chance de misturar Snap com .deb e deixar dois daemons brigando pelo mesmo socket.

Eu removi. Reinstalei do jeito clássico. Li thread. Fiz gambiarra. Fingi que era o futuro.

Até o dia em que a clareza chegou sem poesia:

Enchi o saco.

Não do Linux. Do Ubuntu. Da Canonical. Do projeto de transformar uma distribuição que eu gostava numa plataforma com opinião demais e respeito de menos pelo caminho clássico do Debian — o mesmo Debian do qual o Ubuntu nasceu. A ironia quase merece aplauso.

Por que Debian

Debian não me vende sonho. Entrega estabilidade, repositório que faz o que diz, e a dignidade de instalar um pacote sem descobrir depois que ele veio numa casca com vida própria.

Não é perfeito. Às vezes é chato. Às vezes é conservador. Às vezes o pacote que você quer está numa versão que o GitHub já enterrou. Tudo verdade. Depois de anos engolindo “melhoria” que eu não pedi, chato e previsível soa como luxo.

Mudei. Formatei. Instalei. Configurei o necessário. Voltei a trabalhar.

Não foi conversão religiosa anti-Canonical. Foi cansar de carregar peso que não servia mais. Se o caminho da distribuição não serve, troca-se de estrada.

Ubuntu foi casa por muito tempo. Debian é o endereço agora — com apt, paciência e zero Snap no PATH.