O lance seguinte
Eu jogava xadrez na escola. O Fábio Parisi era colega de sala, e a gente se perdia naquele tabuleiro: um lance puxava o outro, a tarde ia embora. Hoje quase não jogo. Não é que o xadrez tenha saído de mim — o que saiu foi a rotina de sentar por horas. Mas o reflexo ficou. Antes de mover qualquer “peça”, a pergunta que vem é: e depois?
No tabuleiro, a peça pendurada pede para ser capturada. O lance parece óbvio. Duas jogadas depois, a posição desaba. Quem “ganhou” o lance perdeu o jogo. Fora dele é a mesma coisa: o que está na frente pede um sim rápido. O xadrez só deu o nome ao reflexo — pune quem responde só ao da frente.
É isso que me incomoda no serviço público. De verdade. Não a instituição, não a pessoa do lado. A falta do pensamento do passo seguinte. Fecha o de agora. O de amanhã que se vire. Não é um setor. É o jeito.
O de agora
A “peça” da frente é o que está na mesa hoje. Assinar o processo para sair da gaveta. Autorizar a exceção “só dessa vez”. Comprar o mais barato. Remendar o vazamento. Encaminhar para o próximo setor como se isso fosse o trabalho. O pedido é urgente, a solução é curta, a demanda some. Por fora, alguém resolveu.
Por dentro, o tabuleiro piorou.
A exceção vira regra. O atalho de hoje é o problema de amanhã — e aí chega outro pedido, com a mesma pressa, pedindo outro atalho. Quem assume depois herda a posição. Às vezes sou eu. Às vezes é a sala ao lado. Às vezes é o aluno, o servidor, o cidadão que encontra a porta aberta para um procedimento que ninguém consegue concluir.
Mover o que está na frente parece o trabalho. O trabalho é a posição depois: o que vira padrão se eu disser sim.
Vejo isso em todo canto. Protocolo, compra, manutenção, aula, atendimento, TI — a função muda, o lance não. Ninguém acorda querendo piorar o tabuleiro. O indicador é a demanda fechada. O relógio aperta. Perguntar “e depois?” parece enrolação. Como se o serviço fosse só despachar o de agora.
Não é. E a ausência dessa pergunta me incomoda.
Recusar o lance óbvio
O reflexo não é talento. É recusa. A peça óbvia espera. Você força a pergunta antes de mover: se eu fizer isso agora, o que abre? O que fecha? Quem fica exposto?
Nesse jeito de funcionar, o “adversário” não é colega. É o tempo. É quem assume depois. É a auditoria. É o próprio processo, que transforma um favor em precedente. Um sim fácil vira o jeito oficial de fazer — sem ninguém ter decidido isso.
A pergunta cabe numa linha. É a mesma de sempre: e depois?
A pressa empurra para o lado. O processo pede o despacho da frente. A reunião pede o acordo da frente. O alívio pede o lance de agora. E o tabuleiro, daqui a uma semana, está irreconhecível — cheio de peças que ninguém lembra por que estão ali.
Não preciso que todo mundo vire enxadrista. Preciso do reflexo: parar um segundo, ver o lance seguinte, só então mover. O tabuleiro ficou raro. O músculo, não. É o que sinto faltar — e o custo não aparece no ofício de hoje. Aparece depois, quando a posição que a gente mesmo montou já não serve.
Resolver o de agora não fecha o problema. Só tira a peça da mesa. O jogo continua.