28 mai 2026

Sociável não é ser social

As pessoas me acham sociável.

Cumprimento no corredor. Converso na sala. Participo da reunião. Explico o problema tentando não parecer hostil — às vezes sou hostil de propósito; às vezes a bateria está fraca e o filtro some. Dou um jeito, ou pelo menos tento, de não deixar o silêncio virar atrito.

Em ambiente de trabalho — especialmente coordenando TI — isso não é opcional. É a skin.

E aí vem a confusão: sociável vira sinônimo de social. Como se eu gostasse disso. Como se fosse fácil. Como se, ao final do dia, eu ainda tivesse a mesma bateria de quem se alimenta de gente.

Não é o caso.

A skin do expediente

Trabalhar com pessoas exige presença. Não só técnica — presença humana. Ouvir a mesma pergunta três vezes. Traduzir jargão sem parecer arrogante. Mediar expectativa. Sorrir quando o ticket é urgente só na cabeça de quem abriu. Manter o tom quando o dia já está quebrado.

Isso é competência. Não é identidade.

A skin sociável é o modo operacional: educado, acessível, funcional. Serve para o serviço rodar. Serve para a coordenação não virar muro. Serve para a escola não me ler como obstáculo.

Fora do expediente, a conta chega.

O pedágio

Eu tenho TDAH. Quem não vive isso costuma imaginar distração, atraso, bagunça. Às vezes é isso. Às vezes é outra coisa: um gasto absurdo para manter o que, por fora, parece natural.

Atenção dividida. Estímulo demais. Conversa cruzada. Reunião longa. Interrupção em série. Cada troca social puxa recurso. Cada “só um minutinho” não é só tempo — é chaveamento. Trocar de contexto. Guardar o fio. Voltar. Sorrir de novo.

Para muita gente, socializar no trabalho é combustível. Para mim, com frequência, é pedágio.

Não porque eu odeie gente: o cérebro já está brigando para ficar no trilho — e a casca sociável é mais uma tarefa em paralelo. Invisível. Obrigatória. Diária.

O mal-entendido

O mal-entendido é generoso e cruel.

Generoso porque a skin funciona: as pessoas me veem presente, resolutivo, “de boa”. Cruel porque o sucesso da performance apaga o custo. Se eu pareço sociável, deduzem que eu sou social. Se respondo rápido no corredor, deduzem que sobra energia. Se não fujo da conversa, deduzem que eu a pedi.

Ninguém vê o silêncio depois. Ninguém vê a tarde em que a bateria acaba e ainda falta reunião. Ninguém vê que, em casa, o que eu quero não é mais gente — é quietude, foco, uma tarefa só.

Sociável é o que o trabalho pede. Social de verdade é outra coisa: escolha, desejo, reciprocidade sem script. Eu sei ser o primeiro. O segundo, quando aparece, é sobra — não estoque.

“Você sempre foi assim?”

Eu não tenho contato próximo com alunos. Não é minha função diária. Mas, como me veem de um lado para o outro no campus — corredor, laboratório, pátio —, às vezes perguntam se eu sempre fui assim: tão alto astral, sempre comunicativo.

Por fora, parece curiosidade. Por dentro, soa quase como pedido de ajuda. Querem saber — ou tirar a dúvida — se estar fora do padrão é sentença. Se o adulto que eles veem andando pelo campus nasceu pronto. Se existe caminho, ou só exclusão.

Aí eu conto que não: nem sempre fui assim. Foi treino. Skin construída com erro, insistência e muita conta de energia — em ambientes que não estavam desenhados para todo mundo.

Muitos não dizem. Mas eu noto traços neurodivergentes — TDAH, autismo —, parecidos com os meus. O jeito de travar na conversa, de evitar o corredor, de carregar essa pergunta sem conseguir formulá-la direito. Não chega como laudo. Chega como silêncio. Como dúvida disfarçada de papo no meio do caminho.

Essas habilidades precisam ser exercitadas. Por quase todos. E, principalmente, por quem sente o mundo social da escola como um código sem manual. Não é virar outra pessoa. É praticar o suficiente para atravessar a porta, pedir ajuda, aguentar o grupo.

Dá trabalho. Para eles. Para mim também. Cada conversa dessas também cobra pedágio. Ainda assim, é o que eu tento ensinar nesse encontro rápido: nada disso é sentença. Não é destino fechado. Pode ser aprendido — como eu aprendi, aos trancos, sem nascer pronto.

Mas é preciso.

O que sobra, eu protejo

Energia finita. Prioridade. Escolha de onde gastar a skin: no serviço, na coordenação, no atendimento, na conversa que evita conflito amanhã — e no corredor, quando a pergunta aparece. O que sobra, eu protejo. Sem isso, não sobra atenção para o trabalho que exige profundidade nem para a vida fora do crachá.

A skin continua. O pedágio também. Mas o gasto não é só sobreviver ao expediente. É poder dizer, sem mentir, que sociável não é magia: é prática. Que ninguém nasce pronto. Que o código dá para aprender.

Se alguém sair dessa conversa um pouco menos condenado a si mesmo, o pedágio valeu.