21 mar 2025

TatuScan — o inventário que cava até achar a máquina

Tem um tipo de pergunta que parece simples até você tentar responder com honestidade:

— Quantas máquinas temos? — Quais estão ativas? — Essa do laboratório 3 é a mesma do patrimônio X no SUAP?

No papel, inventário é lista. Na prática, é arqueologia. Uma planilha diz uma coisa. O hostname diz outra. O SUAP tem o número de patrimônio, a data de carga, o status. O computador, se você perguntar direito, conta sistema operacional, versão, idade do hardware, se ainda respira na rede. E no meio disso tudo existe um abismo: o dado da máquina e o dado do sistema administrativo quase nunca se encontram sozinhos.

Eu já tentei viver nesse abismo. Excel. Filtro. VLOOKUP. “Depois eu atualizo”. “Essa aqui acho que é a mesma”. Funciona até o dia em que você precisa de um mapa completo do parque — não um chute educado.

Foi aí que nasceu o TatuScan.

O problema de verdade

No campus, máquina não é só ativo. É sala de aula, secretaria, laboratório, impressão, autenticação, a aula que não pode parar porque “o Windows sumiu”. Coordenar TI sem enxergar o parque é administrar no escuro: você sente o impacto quando algo quebra, mas não enxerga o conjunto enquanto tudo ainda funciona.

O SUAP guarda o lado institucional — patrimônio, carga, histórico. O computador guarda o lado técnico — o que está instalado, o que está online, o que envelheceu sem pedir licença. Separados, os dois mundos mentem por omissão. Juntos, contam a história inteira: qual máquina existe de fato, qual está ativa, qual hostname casa com qual número, o que sumiu da rede e ainda consta como se estivesse na mesa.

Eu queria cruzar isso sem ritual. Sem exportar, colar, torcer e rezar.

Como a coisa funciona

A ideia é distribuída e teimosa, do jeito certo.

Um agente leve — em Go, para Windows e Linux — roda na máquina e manda o inventário para uma API. A API guarda tudo em SQLite, com identificação estável a partir dos MACs físicos. Um painel web separado mostra o parque: sistemas, versões, idade de hardware, quem está online, quem sumiu.

Do outro lado, entram os dados do SUAP. Relatório em CSV, número de patrimônio, data de carga. Scripts de manutenção cruzam hostname com patrimônio — IFMT-1234, m1234, o padrão que a casa já usa — e atualizam a ativação no inventário. O que a máquina reporta encontra o que o sistema administrativo registra.

Não é mágica. É junção. Mas junção automática bate planilha na mão todos os dias da semana.

E o nome?

Eu podia ter chamado de Inventory Manager Pro Ultimate. Ou de AssetSync. Ou de qualquer coisa que parecesse slide de fornecedor.

Chamei de TatuScan.

Tatu, o animal. Scan, a ação.

Porque inventariar parque de máquina é exatamente o que um tatu faz o dia inteiro: fuçar o chão, cavar onde ninguém está olhando, aparecer com alguma coisa que estava enterrada sob poeira e boa intenção. A diferença é que o nosso tatu fuça hostname, MAC, patrimônio e data de carga — e, com sorte, não leva um susto de cachorro no caminho.

Tem gente que nomeia projeto com seriedade corporativa. Eu nomeei com bicho que escava. Se o mapa do parque ficou mais claro, o humor no batismo vale o preço.

O que muda no dia a dia

Antes, responder “quantas máquinas ativas temos neste laboratório?” era conversa de corredor mais planilha mais memória afetiva. Depois, vira consulta. O agente conta a máquina. O SUAP ancora o patrimônio. O painel mostra o conjunto. Duplicata antiga some. Ativação atualiza. O inventário deixa de ser fotografia amarelada e passa a ser mapa vivo.

Não resolve política. Não troca hardware velho por milagre. Mas tira a gente do escuro — e escuro, em TI pública, é o lugar onde o incidente mora antes de ganhar nome.

Projeto aberto

O TatuScan é open source (GPL-3.0) e está no GitHub. Agente, API e painel no mesmo monorepo; deploy com Docker, Kubernetes ou systemd, se a casa pedir.

Se o seu parque também vive entre planilha e fé, talvez um tatu ajude a cavar até achar o que importa.

Showcase em inglês e demais projetos de software: carlosrabelo.com/projects/tatuscan/.